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«Fidelidade à população»

Lisboa |BAIRRO 6 DE MAIO, NA AMADORA  

Vivendo em barracas “por opção”, fizeram “pontes”, foram o “rosto da Igreja” e da “caridade” nos bairros degradados da Amadora, durante mais de 40 anos. Atualmente, as Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário acompanham as últimas famílias do Bairro 6 de Maio, que aguardam realojamento, e alertam para o “drama humano” que a droga gerou.

 

 

“Já não há bairro. O bairro acabou”. É um misto de sentimentos que se percebe ao escutar a população do Bairro 6 de Maio, na Amadora, situado às portas de Lisboa. Se, por um lado, um grande número de famílias que vivia em barracas foi, finalmente, realojado; por outro, sobra hoje uma realidade muito diferente de há 40 anos, mas com um “drama humano” que parece não ter fim. “Atualmente, são centenas ou milhares que vêm aqui todos os dias, dia e noite, para traficar e consumir. Quem ocupou agora algumas barracas do bairro foi gente de fora. Não sabemos o número. Em termos de saúde, isto é um drama e ninguém está a olhar para este problema sério”, regista, com desagrado, a irmã Deolinda Rodrigues, responsável pelo Centro Social 6 de Maio e profunda conhecedora das mudanças sociais que este bairro foi sofrendo ao longo das últimas décadas.

 

 

Por opção

“Opção” e “fidelidade à população do bairro” são os motivos que ligam a religiosa dominicana ao 6 de Maio, na Venda Nova, concelho da Amadora. A história da irmã Deolinda, nos últimos anos, é também a história do bairro onde decidiu viver, a partir de 1986, apesar de ter acompanhado de perto o início da missão das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário naquele bairro, pouco depois de 1974. Durante alguns anos, a religiosa intercalou a presença no bairro com o trabalho no Conselho Provincial da congregação. Juntamente com a irmã Paz, a irmã Joana e a irmã Isabel, formam atualmente esta missão na “periferia”, que consideram não ter chegado ainda ao final, mesmo com a demolição e o realojamento de centenas de famílias. “Estamos ainda no bairro porque aqui continuam pessoas debilitadas e a precisar de acompanhamento. São cerca de 70 famílias”, refere a irmã Deolinda, explicando como ainda se mantém a necessidade de “uma presença” no meio do povo. “A população que agora nos procura não é a mesma do início do bairro. Os prédios ao lado do Centro Social 6 de Maio estão a ser habitados, quase todos, por africanos. É uma população carenciada, é gente que precisa de ajuda”, aponta a irmã Deolinda Rodrigues.

 

Pontes

A presença das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário junto da população cabo-verdiana que chegou a Portugal deu-se após a revolução do 25 de abril de 1974. O atual Bairro 6 de Maio era pequeno para a “explosão” de famílias de Cabo Verde que procuravam uma vida melhor num país que tinha acabado de depor um regime ditatorial. A ocupação prolongava-se pelo Bairro das Fontaínhas e pelo o Bairro Estrela d’África, ambos atualmente demolidos. “As irmãs concluíram que era necessário vir e chegaram com a população. Aperceberam-se que era um número considerável e não começaram a residir logo no Bairro das Fontaínhas, junto às Portas de Benfica, porque não encontraram uma casa”, refere a irmã Deolinda, lembrando que foi emprestada às religiosas, ali perto, a “casa do motorista” de um colégio que pertencia às Irmãs Dominicanas do Bom Sucesso.

A população africana que chegava a Portugal, há mais de 40 anos, enfrentava várias dificuldades. Além da necessidade de alojamento, era urgente garantir trabalho, sobretudo para os homens. “Acontecia que a maioria das pessoas que chegava era analfabeta. Era urgente que garantissem, pelo menos, a 4ª classe para poderem arranjar trabalho. Por isso, uma das primeiras coisas que fizemos foi organizar a alfabetização. Foi um projeto que nunca acabou e continua até hoje! Chegou a ser uma referência para muitos, que até vinham cá para ver como funcionava. Neste projeto, houve muita gente voluntária, alguns até politicamente comprometidos”, explica a irmã Deolinda.

Quando, em 1978, as irmãs Dominicanas conseguiram uma habitação no Bairro das Fontaínhas, a irmã Deolinda visitou a habitação e guarda daí memória do que viu: “Lembro-me de lá ir uma vez e ver montanhas de processos em cima da mesa para pedirem água e luz à câmara municipal e até processos de legalização”. A ponte entre a população e as entidades estatais foi, muitas vezes, feito pelas comissões de moradores e pelas religiosas que tinham como missão inicial “viver com a população”. “Queríamos simplesmente para estar com o povo e ser presença da Igreja junto dos que estavam a chegar”, garante.

A chegada de muitas crianças cabo-verdianas, com os seus pais, fez com que as religiosas procurassem soluções para garantir uma melhor integração e que evitasse o desvio por outros caminhos. “Outra das necessidades era o ensino do Português. As escolas não conseguiam abranger a quantidade de crianças que chegavam. Então, as irmãs tiveram que fazer, juntamente com voluntários, o que depois se chamaria de ATL (Atividades de Tempos Livres). Foi-se também trabalhando, com as mulheres, a questão da economia doméstica”, explica a irmã Deolinda.

 

Igreja presente

O Bairro 6 de Maio está inserido na Paróquia da Venda Nova, confiada aos Padres Redentoristas, mas a população sempre esteve mais ligada à Paróquia da Damaia, também a cargo desta congregação. De início, e de forma “consciente”, as irmãs Dominicanas não iniciaram logo a catequese. “Pretenderam ser primeiro um fermento para que fosse a própria população a querer criar a Igreja. E assim foi. Começámos com um curso bíblico, antes dos anos 80. Daí surgiram os catequistas e o grupo ‘Ajuda fraterna’, que ainda hoje existe. O objetivo é estar atento às necessidades da população e ver quem está doente e mais carenciado. Era tudo feito com gente do bairro”, revela a irmã Deolinda Rodrigues.

A Missa Dominical começou a realizar-se a cada 15 dias. “Foram os padres dos Sagrados Corações, que estavam na Pedreira dos Húngaros, que começaram a vir celebrar ao bairro. O intuito era que, em Domingos alternados, as pessoas participassem nas paróquias. Entretanto, a Capelania Africana assumiu o serviço, com os padres Espiritanos. Há cerca de 10 anos começámos a ter, todos os Domingos, a Missa Dominical, no refeitório do Centro Social e continuámos com a catequese. As celebrações dos Sacramentos eram feitas na Paróquia da Venda Nova”, refere a irmã Deolinda, sublinhando o apoio que recebeu de muitos sacerdotes: “Tivemos a colaboração de inúmeras congregações religiosas, dominicanos, franciscanos, jesuítas, vicentinos, desde o ano 2000, e devemos também bastante ao Santuário de Fátima”. No Bairro 6 de Maio existe, hoje, uma missão juvenil do movimento de Schoenstatt. “Há 3 anos alugaram uma casa em frente ao bairro para trabalharem aqui. Vão-se rendendo e têm sido uma ajuda ótima”, aponta.

 

 Grande ação

O Centro Social 6 de Maio começou por prestar apoio à população cabo-verdiana que residia no bairro mas, atualmente, os destinatários são de várias proveniências. “Chegam de todo o lado. A predominância da procura é da população africana”, destaca a religiosa, responsável pela instituição. “Também somos procurados por famílias que estão a viver na linha de Sintra. É a população que saiu destes bairros, e que comprou casa, que nos procura, sobretudo para inscrever os filhos na creche e pré-escolar. Por isso, não sentimos a diminuição de matrículas”, garante.

Uma das três valências da instituição é o Centro Comunitário, com projetos na área de Apoio Social e Familiar, na Educação e na Animação Cultural e Recreativa. “O Centro Comunitário é a nossa grande ação”, aponta a irmã Deolinda. “Temos técnicas de serviço social que fazem atendimento diário permanente. Temos muitíssima procura, com dias em que se atende mais de 20 pessoas”, afirma a religiosa, que é responsável pela instituição que emprega mais de 20 pessoas e que conta com a “preciosa” ajuda de mais de 40 voluntários. “Temos a colaboração de muita gente de empresas e de instituições que nos procuram para desenvolver projetos. Recentemente, com a colaboração de várias figuras públicas e de relevo, publicou-se um livro – ‘Do outro lado da linha’ – sobre o Bairro 6 de Maio. Com as receitas da venda do livro, mas não só, tivemos um projeto de Bolsas de Estudo para Universitários”, conta a irmã Deolinda.

Agora que o bairro está numa fase muito avançada de demolições e realojamento, as Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário fazem um balanço dos frutos que foram vendo. “Vimos nascer e morrer o bairro. Há frutos! Temos presenciado algumas pessoas que nasceram e viveram aqui e que estão muito bem, organizaram as suas vidas e guardam esta realidade no coração”, afirma a irmã Deolinda Rodrigues que gostava de destacar mais “o trabalho realizado pela sociedade civil”, em prol do Bairro 6 de Maio.

 

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Bairro 6 de Maio celebrou o padroeiro, com a presença do Cardeal-Patriarca

A população do Bairro 6 de Maio comemorou, no passado dia 2 de julho, a 25ª edição da Festa em honra do Padroeiro, São Domingos de Gusmão, e a data da independência de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A Missa foi celebrada pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa e foi lembrada a presença de D. Manuel Clemente, há dois anos, visitando algumas das casas. “As pessoas gostaram imenso da sua proximidade e simplicidade”, aponta a irmã Deolinda, que guarda uma das frases proferidas na homilia da Missa, no início deste mês: “A tristeza cura-se servindo os outros”.

Foi por notar, há mais de 25 anos, que as crianças e os jovens “estavam a entrar num ambiente de delinquência, falta às aulas, fuga”, que as irmãs se juntaram com a população para refletir sobre o que fazer. “Concluímos que isso devia-se ao facto de as pessoas terem perdido a identidade. Por isso, pensámos ser muito útil investir na cultura de origem e trabalhar a atitude de acolhimento. Investimos na Festa do Padroeiro, com um tipo de festa muito baseado na tradição cabo-verdiana, preparada com terços, em casa das pessoas, e com visita aos doentes. O povo cabo-verdiano é único na visita aos doentes e presos, por exemplo. São valores que quisemos agarrar e mantê-los vivos”, assegura a irmã Deolinda Rodrigues.

texto por Filipe Teixeira; fotos por Filipe Teixeira e Centro Social 6 de Maio

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